Uber

Ariel, rapaz branco, loiro de olhos azuis, chama um carro de aplicativo. Ele espera na frente de seu condomínio. Portão eletrônico, quadra de esportes, piscina e garagem com segurança. Ariel usa um tênis Adidas de R$1000,00, calça jeans e uma jaqueta de couro preta, o relógio de Ariel vale uma centena de cestas básicas. O motorista do Uber sente seu cheiro assim que dobra a esquina. O rapaz abre a porta traseira, mas é convencido, pelo motorista, a ir no banco da frente. O nome do condutor do veículo é Rogério. Ele oferece balas, pirulitos, água mineral com gás e até energético. E para completar, pergunta se o ar está na temperatura adequada.

Após verificar que Ariel está em segurança, ele dá partida no carro.

. Então Ariel, seja bem-vindo.
. Obrigado. Como está sendo seu dia de trabalho?
. Bom, já tive melhores, mas graças a Deus não posso reclamar.
. Legal.
. Você trabalha com o quê? Pergunta Rogério.
. Eu sou Pediatra.
. Que bacana. Tenho uma filha de seis anos.
. Eu não tenho filhos. Antes que você pergunte.
. Então posso fazer outra? Questiona Rogério um tanto sem graça.
. Sim.
. Raquel, minha garotinha, está com uma alergia nas pernas, já tentei algumas medicações, mas nada com resultado permanente. Vai e volta.
. Quais medicações você usou?
. Algumas pomadas. Betametasona, eu acho que é esse o nome.

Ariel pensou um pouco e respondeu:

. Experimente dar a ela um xarope. Histamim ou Allegra. São ótimos e também os que eu mais recomendo.
. Obrigado, doutor.
. Por nada, melhoras para ela.
. Qual seu time?
. Grêmio.
. Meu também.

Após dez minutos de muito bate papo, Rogério deixou Ariel em seu destino. Ambos trocaram telefone, afim de agendar uma consulta para a filha do motorista.

Assim que Ariel bateu a porta, uma nova solicitação de carro foi feita. Dessa vez por Elton. Rapaz negro, olhos castanhos.

Elton estava esperando na frente de sua casa: um barraco, metade madeira, metade tijolo. O portão era preso por um arame e a cerca de taquara estava um pouco fora de nível. Para acessar a rua, Elton tinha que pular uma vala que passava na frente de casa. Ele vestia calça jeans novas, tênis recém-lavados. Na mão direita um relógio de R$50,00 e o cabelinho na régua.

Rogério estacionou, estava sério e não fez questão alguma de convidar Elton para o banco da frente.

. Boa noite. Desejou Elton.
. Boa noite. Disse Rogério.
.
.
Rogério olha de canto pelo retrovisor.
.
.
.
Rogério limpa as mãos para secar o suor.
.
.
.
.
Rogério verifica o trajeto pela centésima vez.

Rogério passa um lenço na testa e agradece a Deus por ter chegado vivo ao destino. Elton paga a corrida, deseja uma ótima noite de trabalho e sai do carro. Rogério diz obrigado e fecha a porta.

Sem balas ou pirulitos.

Mal sabia Rogério que Elton também poderia ajudar Raquel, sua filha. Elton é professor de Matemática e tinha ótimas dicas para Raquel melhorar sua relação com os números. Sem falar que também é gremista e que, devido a sua experiência por trabalhar em uma farmácia para ajudar nas contas enquanto estudava, poderia indicar algo para a filha do condutor.

As estruturas criam essa complexa rede social. Como um tabuleiro de xadrez com peão na casa preta e rei na branca, fazendo a gente insistir no retrocesso. O problema é que esquecemos que os olhos enxergam mais que isso. E que ao final do jogo, todas as peças vão para a mesma caixa.

Eu gostaria muito que talvez alguns upgrades no cérebro ajudassem, mas, infelizmente, quase tudo vem do coração.

Maurício Rosa de Souza

@autormauriciosouza

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